|
|
A Conferência que não pode salvar a si mesma As corporações se asseguraram que a regulamentação real ficasse fora da agenda Naomi Klein 4 de setembro de 2002 The Guardian Tradução Imediata Quando o Rio hospedou a primeira Conferência da Terra em 1992, havia tanta boa vontade em torno do evento que ele foi apelidado, sem ironia, de Conferência para Salvar o Mundo. Nesta semana, em Johannesburg, ninguém afirmou que o prosseguimento da Conferência Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável poderia salvar o mundo. A pergunta tem sido se o encontro pode salvar a si próprio. O ponto crítico tem sido o que os burocratas da ONU chamam de "implementação" e que o restante de nós chama de "fazer alguma coisa". Grande parte da culpa para a "lacuna de implementação" foi posta na soleira dos EUA. Foi George W Bush quem abandonou as únicas regulamentações que foram aprovadas na conferência do Rio: o protocolo de Kyoto sobre mudança climática. Foi Bush quem decidiu não vir a Johannesburg, sinalizando que as questões discutidas aqui do saneamento básico à energia limpa não são prioridades para a sua administração. E a delegação dos EUA bloqueou todas as propostas que envolviam seja direta seja indiretamente a regulamentação das corporações multinacionais ou que dedicavam novos e significativos fundos para o desenvolvimento sustentável. Mas é muito fácil meter o pau só em Bush: a conferência não fracassou devido a algo que tenha acontecido em Johannesburg. Falhou porque todo o processo tem sido uma armadilha camuflada desde o início. Quando o empreendedor e diplomata Maurice Strong foi apontado para a presidência do encontro no Rio, sua visão era a de um evento que reunisse todos os "interessados" em torno de uma mesma mesa não só governos, mas também ambientalistas, grupos indígenas e grupos de lobby, assim como as corporações multinacionais. A visão de Strong permitia uma maior participação da sociedade civil do que qualquer conferência prévia da ONU enquanto levantava somas de fundos sem precedentes para o Encontro. Mas o patrocínio tinha um preço. As corporações chegaram ao Rio com condições claras: elas adotariam práticas ecologicamente sustentáveis, mas somente de forma voluntária, através de códigos não obrigatórios e parcerias de "melhores práticas" com as ONGs e os governos. Em outras palavras, quando o setor empresarial veio à mesa no Rio, a regulamentação direta dos negócios foi banida. Em Johannesburg, essas "parcerias" passaram para a auto-paródia, com o centro da conferência embaraçosamente adornado de displays sobre os "carros limpos" da BMW e painéis eletrônicos dos diamantes da De Beers anunciando: "Água para toda a Eternidade". O patrocinador oficial do encontro foi a Eskom, a companhia de energia da África do Sul que será brevemente privatizada. Um estudo recente afirmou que sob a reestruturação da Eskom, 40.000 domicílios perderão acesso à eletricidade a cada mês. Isso aflige um golpe mortal ao debate real sobre o encontro. O World Business Council for Sustainable Development (Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável), um grupo de lobby corporativo fundado no Rio, insiste que o caminho para a sustentabilidade é a mesma fórmula batida que está sendo imposta pela OMC e pelo FMI; os países pobres devem ser hospitaleiros com relação ao investimento estrangeiro, geralmente por meio da privatização dos serviços básicos, da água à eletricidade e à saúde. Mas na era pós-Enron, sendo tão difícil de acreditar que as empresas possam ser confiadas com relação a seus próprios livros contábeis, o que dizer de confiar nelas para a salvação do mundo? E, ao contrário de uma década atrás, o modelo econômico do desenvolvimento laissez-faire está sendo rejeitado por movimentos populares em todo o mundo. Desta vez, muitos dos "interessados" não estavam na mesa oficial, mas fora, nas ruas, ou organizando contra-encontros para tramar percursos muito diferentes de desenvolvimento: cancelamento da dívida, fim da privatização de água e eletricidade, reparações por abusos do apartheid, moradias economicamente acessíveis, reforma agrária. Esses movimentos não estão mais dispostos a conversar sobre suas demandas; estão agindo com relação a elas. Nos últimos dois anos, a África do Sul experienciou um surto em termos de ação direta, com grupos organizando a resistência contra ações de despejo, reivindicando terras não produtivas e reconectando a água e a eletricidade cortadas nas cidades. O fato de que o encontro da terra sobre a pobreza tenha acontecido no fundo de seu quintal, também criou sérios obstáculos. Sandton, o subúrbio ultra-rico onde a conferência teve lugar, foi transformado numa zona militar. Houve detenções e ataques da polícia contra marchas de protesto. Na segunda-feira, numa demonstração pró-palestina ocorrida fora do local onde discursava Shimon Peres, o Ministro das Relações Exteriores de Israel, soldados atiraram balas de borracha e canhões dágua, ferindo seriamente vários manifestantes. O Encontro Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável não vai salvar o mundo; apenas oferece um espelho aumentado do mesmo. Nos restaurantes chiques de Sandton, os delegados se saciaram de sua preocupação com os pobres. Fora dos portões, as pessoas foram escondidas, atacadas e aprisionadas por aquilo que se tornou o icônico ato de resistência num mundo insustentável: a recusa de desaparecer. Uma versão anterior deste artigo apareceu na revista The Nation. · O livro mais recente de Naomi Klein, Fences and Windows: Dispatches From the Front Lines of the Globalisation Debate (Cercas e Janelas: Despachos das linhas de frente do debate sobre a globalização (HarperCollins) será publicado no próximo mês.
The summit that couldn't save itself Corporations have ensured that real regulation is off the agenda Naomi Klein Wednesday September 4, 2002 The Guardian When Rio hosted the first earth summit in 1992, there was so much goodwill surrounding the event that it was nicknamed, without irony, the Summit to Save the World. This week in Johannesburg, nobody has claimed that the follow-up World Summit on Sustainable Development could save the world. The question has been whether the summit could even save itself. The sticking point has been what UN bureaucrats call "implementation" and the rest of us call "doing something". Much of the blame for the "implementation gap" has been placed at the doorstep of the US. It was George W Bush who abandoned the only significant environmental regulations that came out of the Rio conference: the Kyoto protocol on climate change. It was Bush who decided not to come to Johannesburg, signalling that the issues being discussed here - from basic sanitation to clean energy - are low priorities for his administration. And the US delegation has blocked all proposals that involve either directly regulating multinational corporations or dedicating significant new funds to sustainable development. But the Bush-bashing is too easy: the summit hasn't failed because of anything that happened in Johannesburg. It has failed because the entire process was booby-trapped from the start. When Canadian entrepreneur and diplomat Maurice Strong was appointed to chair the Rio summit, his vision was of a gathering that brought all the "stakeholders" to the table - not just governments, but also environmentalists, indigenous groups and lobby groups, as well as multinational corporations. Strong's vision allowed for more participation from civil society than any previous UN conference, at the same time as it raised unprecedented amounts of corporate funds for the summit. But the sponsorship had a price. Corporations came to Rio with clear conditions: they would embrace ecologically sustainable practices, but only voluntarily, through non-binding codes and "best practice" partnerships with NGOs and governments. In other words, when the business sector came to the table in Rio, direct regulation of business was pushed off. In Johannesburg, these "partnerships" have passed into self-parody, with the conference centre chock-a-block with displays for BMW "clean cars" and billboards for De Beers diamonds announcing "Water is Forever". The summit's chief sponsor was Eskom, South Africa's soon-to-be-privatised national energy company. A recent study stated that under Eskom's restructuring, 40,000 households are losing access to electricity each month. This cuts to the heart of the real debate about the summit. The World Business Council for Sustainable Development, a corporate lobby group founded in Rio, insists the route to sustainability is the same trickle-down formula being imposed by the WTO and IMF: poor countries must make themselves hospitable to foreign investment, usually by privatising basic services, from water to electricity to healthcare. But post-Enron, it's hard to believe that companies can be trusted to keep their own books, let alone save the world. And unlike a decade ago, the economic model of laissez-faire development is being rejected by popular movements around the world. This time, many of the "stakeholders" weren't at the official table, but out in the streets, or organising counter-summit conferences to plot very different routes to development: debt cancellation, an end to the privatisation of water and electricity, reparations for apartheid abuses, affordable housing, land reform. These movements are no longer willing simply to talk about their demands; they are acting on them. In the past two years, South Africa has experienced a surge in direct action, with groups organising to resist evictions, claim unproductive land and reconnect cut-off water and electricity in the townships. The fact that a world summit on poverty has been unfolding in their backyard has also created serious obstacles. Sandton, the ultra-rich suburb where the conference is being held, has been transformed into a military zone. There have been arrests and police attacks on protest marches. On Monday, at a pro-Palestinian demonstration staged outside a speech by Shimon Peres, the Israeli Foreign Minister, soldiers fired rubber bullets and water cannon, severely injuring several protesters. The World Summit on Sustainable Development isn't going to save the world; it merely offers an exaggerated mirror of it. In the gourmet restaurants of Sandton, delegates have dined out on their concern for the poor. Outside the gates, poor people have been hidden away, assaulted and imprisoned for what has become the iconic act of resistance in an unsustainable world: refusing to disappear. An earlier version of this article appeared in The Nation. · Naomi Klein's latest book, Fences and Windows: Dispatches From the Front Lines of the Globalisation Debate (HarperCollins) is published next month
Biodiversidade Ambiental
|
||
|
|
|||